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Refino nacional cresce 10% até 2036 e Nordeste ainda dependerá de diesel de fora

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Com o 2º trem da Abreu e Lima a partir de 2027, o Nordeste vai produzir 86% do diesel que consome em 2036, diz caderno do plano decenal de energia divulgado pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e a Empresa de Pesquisa Energética (EPE)

O segundo trem da Refinaria Abreu e Lima (Rnest), em Ipojuca (PE), vai acrescentar 130 mil barris por dia à capacidade de refino de petróleo do Nordeste a partir de junho de 2027, mas a região ainda vai depender de diesel vindo de fora em 2036. Nesse ano, a produção local vai atender 86% da demanda nordestina de diesel, de acordo com o Caderno de Refino e Infraestrutura de Abastecimento do Plano Decenal de Expansão de Energia (PDE) 2036, publicado na terça-feira (3) pelo Ministério de Minas e Energia (MME) e pela Empresa de Pesquisa Energética (EPE).

Trem é o nome dado ao conjunto de unidades que transforma o petróleo em combustíveis. O primeiro trem da Rnest, em operação, processa 130 mil barris por dia, e o Nordeste soma 471 mil barris diários de capacidade em setembro de 2026, o equivalente a 21% do total do país. A Refinaria de Mataripe, em São Francisco do Conde (BA), lidera a região com 289 mil barris por dia, seguida pela Rnest, pela Refinaria Potiguar Clara Camarão (RPCC), em Guamaré, no Rio Grande do Norte, com 38 mil, pela unidade de Lubrificantes e Derivados de Petróleo do Nordeste (Lubnor), em Fortaleza, com 10 mil, e pela Dax Oil, em Camaçari (BA), com 4 mil.

No país, a capacidade de refino vai crescer cerca de 10% entre 2026 e 2036 e chegar a 2,53 milhões de barris por dia, com o Trem 2 da Rnest entre os investimentos que puxam a expansão. A demanda de óleo diesel A, o diesel puro, antes da mistura com biodiesel, vai subir 19% no período, enquanto a produção nacional vai crescer 13%.

Com isso, as importações líquidas de diesel, que descontam as vendas ao exterior, vão chegar a 51 mil metros cúbicos por dia em 2036, cerca de 25% da demanda. O volume fica acima dos 37 mil metros cúbicos diários estimados para 2026 e dos 40 mil de 2025, a maior marca da série até então, pelos dados do caderno.

Trem 2 vai produzir diesel S10 e nafta a partir de 2027
O Trem 2 da Rnest entra em operação por etapas, de acordo com a carteira de investimentos da Petrobras reproduzida no estudo. A unidade de destilação, que faz a primeira separação do petróleo, amplia a capacidade em 130 mil barris por dia a partir de junho de 2027. Em fevereiro de 2028 começa a funcionar uma unidade de hidrotratamento de nafta, com 22,6 mil barris diários, e em novembro de 2028, uma unidade de geração de hidrogênio, com 3 milhões de metros cúbicos normais por dia.

As duas últimas unidades chegam em julho de 2029: uma unidade de hidrotratamento de diesel, com 82 mil barris por dia, e uma de coqueamento retardado, com 76 mil. O hidrotratamento usa hidrogênio para retirar o enxofre do combustível e é o processo que permite fabricar o diesel S10, com até 10 partes por milhão de enxofre. O coqueamento transforma o resíduo pesado do petróleo em derivados mais leves e em coque.

A entrada do Trem 2 está entre os fatores que vão elevar em 68,5% a produção nacional de nafta, matéria-prima da indústria petroquímica, de 16 mil para 27 mil metros cúbicos por dia até 2036, ao lado de ampliações em refinarias do Sudeste e do Sul. A nova unidade também deve elevar levemente a produção de gás liquefeito de petróleo (GLP), o gás de cozinha, nas refinarias a partir da segunda metade da década. Com os novos hidrotratamentos da Rnest e do Complexo Boaventura, em Itaboraí (RJ), o diesel S10 deve chegar a 93% do diesel rodoviário produzido no país em 2036.

Nordeste vai receber GLP importado e abastecer o Norte por navio
Em 2036, o Nordeste vai produzir menos do que consome nos quatro combustíveis que o caderno analisa por região. Além dos 86% no diesel, a produção local vai atender 60% da demanda de gasolina, 52% da de querosene de aviação (QAV) e 49% da de GLP. Em volume, a região vai consumir 35,8 mil metros cúbicos de diesel por dia e produzir 30,8 mil.

As importações de GLP do país em 2036 vão entrar pelo Nordeste, e o diesel comprado no exterior vai chegar pelas regiões Sul, Sudeste, Nordeste e Norte. O Sudeste, único com sobra nos quatro produtos, vai mandar parte do excedente de GLP e de gasolina para os estados nordestinos.

Ao mesmo tempo, o Nordeste vai abastecer o Norte por cabotagem, a navegação entre portos do país. A região vai enviar diesel, gasolina e gás de cozinha para os estados nortistas e atender cerca de metade da demanda de QAV do Norte, que produz 46% do querosene que consome.

Bahia tem nova refinaria e biorrefinaria no horizonte do plano
Fora da Rnest, o caderno inclui a Brasil Refino, em Simões Filho (BA), entre os novos ativos de refino do país, com início de operação previsto para o segundo semestre de 2026, com base no portal N1N. O documento não informa a capacidade da unidade.

Em São Francisco do Conde, a Acelen, operadora de Mataripe, tem o único projeto do Nordeste entre as cinco biorrefinarias consideradas no PDE 2036. A tecnologia prevista usa óleo vegetal ou sebo bovino para produzir diesel verde e combustível sustentável de aviação (SAF), que substitui parte do querosene de origem fóssil.

O petróleo extraído no Norte e no Nordeste também deve ganhar espaço nas refinarias brasileiras com novos projetos, como Sergipe Águas Profundas, e a Margem Equatorial pode reforçar a tendência no longo prazo, de acordo com o estudo. Nos últimos anos, os óleos do pré-sal da Bacia de Santos substituíram os da Bacia de Campos na carga das refinarias nacionais.

Brasil vai exportar mais da metade do petróleo e seguir comprando derivados
A produção nacional de petróleo deve chegar a 4,9 milhões de barris por dia em 2036, e mais da metade do volume produzido entre 2026 e 2036 vai para o exterior. As refinarias vão operar perto de 90% da capacidade, com participação crescente do óleo nacional na carga processada.

O país vai seguir como importador líquido de derivados, com 37 mil metros cúbicos por dia em 2036, abaixo do pico de 79 mil registrado em 2017. A fatia importada da demanda interna, que ficou acima de 15% em média nos últimos dez anos, deve cair para 8% no fim do período.

A dependência externa da nafta vai cair de 54% para 27%, e o QAV deve chegar à autossuficiência em 2031. A gasolina também deve deixar de depender de importação no médio prazo, com mais etanol anidro na mistura e o avanço dos carros elétricos, enquanto o GLP importado vai responder por cerca de 6% da demanda em 2036.

Os estudos do plano, elaborados entre março e junho de 2026, consideram o petróleo Brent, referência internacional de preço, perto de US$ 80 por barril. O caderno afirma que os ataques à infraestrutura de petróleo na guerra do Golfo Pérsico, iniciada com o bombardeio norte-americano ao Irã em fevereiro de 2026, mantêm o barril perto de US$ 100 no curto prazo.

Três oleodutos podem chegar ao limite até 2036
O estudo identifica três dutos de derivados que podem atingir ou se aproximar da capacidade máxima no horizonte do plano. O Oleoduto Paraná-Santa Catarina (Opasc) liga Araucária (PR) a Biguaçu (SC), o Oleoduto São Paulo-Brasília (Osbra) liga Paulínia (SP) a Brasília, e o Oleoduto São Sebastião-Paulínia (Osplan I) liga Guararema (SP) a Paulínia.

O Osbra leva parte do excedente de diesel do Sudeste para o Centro-Oeste, região que não tem refinaria. Para a EPE, será preciso melhorar a eficiência das operações e investir em logística para evitar falta de combustível em algumas regiões.

O PDE 2036 está em consulta pública até sexta-feira (6), com contribuições pela página de Consultas Públicas do MME ou pela plataforma Brasil Participativo. Elaborado todo ano pela EPE, o plano tem caráter indicativo e orienta decisões de governos e empresas para os próximos dez anos.

Petrobras contratou R$ 8,3 bilhões para o Trem 2 em 2025
Em 16 de junho de 2025, a Petrobras assinou com a Consag Engenharia os primeiros contratos do Trem 2, de R$ 4,9 bilhões, para retomar a obra interrompida em 2015, no contexto da Operação Lava Jato. Em 24 de outubro de 2025, a estatal confirmou que os contratos somavam R$ 8,3 bilhões, com previsão de 30 mil empregos diretos e indiretos durante a construção.

No Plano de Negócios 2026-2030, aprovado pelo Conselho de Administração em 27 de novembro de 2025, a Petrobras previa levar a Rnest de 130 mil para 260 mil barris por dia até 2029 e acrescentar 94 mil barris diários de diesel S10. Naquele mês, a companhia informava 2,5 mil trabalhadores mobilizados na obra, e o plano listava a unidade de coqueamento com 75 mil barris por dia, contra 76 mil no caderno do PDE 2036.

O primeiro trem passou por modernização em março de 2025, com investimento de R$ 93 milhões, que elevou a capacidade de 115 mil para 130 mil barris por dia. No terceiro trimestre de 2025, a Rnest processou 121 mil barris diários e era a maior produtora de diesel S10 da Petrobras, de acordo com o relatório de produção e vendas da companhia.

Fonte: Movimento Econômico