Entidade afirmou que alta do frete não acompanha avanço dos custos operacionais e aponta pressão do diesel, prazos longos de pagamento e impacto regulatório sobre as transportadoras
A alta do frete rodoviário em 2026 não tem representado ganho real para as transportadoras, segundo avaliação da Federação das Empresas de Transportes de Cargas do Estado de São Paulo (FETCESP). De acordo com o presidente da entidade, Carlos Panzan, o aumento registrado no período reflete uma recomposição parcial diante da elevação dos custos operacionais, especialmente do diesel, e do crescimento da demanda impulsionado pela supersafra.
Segundo o Índice de Frete Rodoviário da Edenred Repom, o frete acumulou alta de 2,28% desde dezembro. Para a FETCESP, no entanto, o reajuste não eliminou a defasagem estrutural do setor, estimada em cerca de 10% no início de 2026.
“O ponto central é que o setor já iniciou o ano com uma defasagem estrutural relevante, estimada em cerca de 10% e, mesmo com a alta do frete, essa diferença não foi eliminada. Ou seja, o transportador continua operando com margens comprimidas, absorvendo parte significativa dos aumentos”, afirmou o executivo em entrevista à MundoLogística.
DIESEL E CUSTOS OPERACIONAIS PRESSIONAM O SETOR
Entre os fatores que mais pressionam a operação das empresas está o diesel, que pode representar entre 35% e 50% do custo do frete, chegando a até 70% em algumas operações. “Em 2026, o combustível registrou alta superior a 20% no primeiro trimestre, impactando diretamente o custo por quilômetro rodado e reduzindo a previsibilidade das operações”, disse.
Panzan também apontou outros fatores de pressão, como a alta no preço dos caminhões, o aumento e a escassez de mão de obra, os custos com seguros e as exigências regulatórias. A entidade citou ainda os efeitos da reoneração da folha e da implementação da Reforma Tributária, que, segundo o setor, ampliam a complexidade operacional e os custos de conformidade.
Outro ponto destacado pelo presidente é o alongamento dos prazos de pagamento do frete. Segundo Panzan, há casos em que o pagamento ocorre em até 180 dias. Para a entidade, isso compromete o fluxo de caixa das empresas, que precisam arcar de forma imediata com despesas como combustível, manutenção e folha de pagamento.
“Se esse cenário de descompasso entre custo, receita e prazo de pagamento se mantiver, existe um risco concreto de inviabilização de operações, especialmente para pequenas e médias transportadoras”, destacou.
Para o presidente, esse conjunto de fatores cria um ambiente de forte pressão sobre as empresas, em que o aumento do frete não é suficiente para recompor custos e a geração de caixa fica comprometida. “O resultado é um cenário de estrangulamento operacional, que pode limitar investimentos, reduzir capacidade de operação e, em casos mais críticos, comprometer a continuidade das atividades”, pontuou.
DEMANDA AQUECIDA NÃO GARANTE AUMENTO DE RENTABILIDADE
Mesmo em um cenário de demanda aquecida, a FETCESP avaliou que o aumento do volume transportado não garante melhora proporcional na remuneração do setor. Segundo o executivo, muitas empresas permanecem vinculadas a contratos já firmados e enfrentam dificuldades para repassar custos na mesma velocidade em que eles aumentam.
“Assim, o transportador pode trabalhar mais, assumir mais risco e ainda assim operar com margem reduzida”, ressaltou.
De acordo com levantamento da NTC&Logística citado pela federação, o frete rodoviário apresentava defasagem média de 10,1% no início de 2026. Para a FETCESP, o valor praticado no mercado ainda não acompanha integralmente os custos reais da operação.
Panzan afirmou que os primeiros impactos desse descompasso aparecem no fluxo de caixa e na capacidade de investimento das transportadoras. Segundo o setor, o cenário pode afetar a renovação de frota, investimentos em tecnologia, segurança e qualificação, além de dificultar a manutenção de contratos considerados sustentáveis.
“Com o tempo, esse desequilíbrio afeta a qualidade da operação, a previsibilidade do abastecimento e pode pressionar o preço final dos produtos”, afirmou o presidente da FETCESP.
Para os próximos meses, Panzan apontou como principais vetores do comportamento do frete o preço do diesel, a demanda por transporte, os custos regulatórios e tributários, a mão de obra, os seguros e o ambiente econômico. A entidade também acompanha os efeitos da reoneração gradual da folha e da Reforma Tributária sobre os custos operacionais do setor.
Fonte: Mundo Logística
