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Março reforça protagonismo feminino no transporte de cargas e expõe desafios que vão além da agenda anual

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O mês de março, tradicionalmente marcado pelas discussões sobre equidade de gênero, ganhou força no Transporte Rodoviário de Cargas (TRC) em 2026 com a realização de iniciativas relevantes voltadas à ampliação da participação feminina no setor. O tema, no entanto, vai além de uma agenda pontual: os dados mostram que, apesar dos avanços, ainda há um desafio estrutural importante a ser enfrentado.

Segundo o Índice de Equidade no Transporte Rodoviário de Cargas, realizado pelo Movimento Vez & Voz, iniciativa do Sindicato das Empresas de Transporte de Cargas de São Paulo e Região (SETCESP), a participação feminina no setor avançou de 14,88% em 2023 para 16,79% em 2025, com mais de 24 mil novas profissionais contratadas apenas no último ano. Esse movimento reflete um interesse crescente pela atividade, também observado no aumento de 40% no número de mulheres habilitadas na categoria E entre 2021 e 2025. No entanto, esse avanço ainda não se traduz na mesma proporção dentro da operação: na função de motorista, a presença feminina segue limitada, variando entre 3% e 10%, evidenciando que, mais do que atrair, o setor ainda precisa evoluir na criação de condições estruturais e oportunidades reais para a entrada e permanência dessas profissionais.

Nesse contexto, iniciativas realizadas ao longo do mês de março tiveram papel estratégico ao transformar o debate em ação prática. Entre os destaques estão o 5º Encontro Vez & Voz, promovido pelo SETCESP, movimento idealizado pela entidade para impulsionar a presença feminina no transporte e o 1º Encontro Nacional de Mulheres Motoristas, realizado pela Fabet.

Para a presidente executiva do SETCESP, Ana Jarrouge, o avanço mais relevante dos últimos anos está na mudança de percepção dentro do próprio setor. “Deixamos de tratar a presença feminina como exceção e passamos a encarar como uma construção contínua. Hoje vemos mais mulheres se posicionando, participando das discussões e ocupando espaços, e isso também tem provocado uma mudança importante dentro das empresas, que começam a olhar com mais atenção para cultura, ambiente e desenvolvimento”.

Segundo a executiva, espaços como o Encontro Vez & Voz são fundamentais para acelerar essa transformação. “Esses ambientes criam conexão real entre mulheres de diferentes regiões e momentos de carreira. Isso fortalece, gera identificação e mostra que ninguém está sozinho. Além disso, traz o tema para o centro das discussões do setor com dados e exemplos práticos, o que contribui para uma mudança mais estruturada”, destaca.

O 1º Encontro Nacional de Mulheres Motoristas, também marcou o mês ao dar visibilidade à realidade da operação e às profissionais que estão na linha de frente do transporte. O evento reforçou a importância de olhar para a inclusão de forma prática, especialmente no acesso ao primeiro emprego.

Na avaliação de Joyce Bessa, diretora de estratégia e gestão da TransJordano, vice-presidente extraordinária de ESG da NTC&Logística e embaixadora do Curso de Formação de Mulheres para o Transporte de Cargas da Fabet, o principal avanço dessas iniciativas está na capacidade de transformar discurso em execução. “Quando você reúne motoristas, empresas e lideranças no mesmo ambiente, você tira o tema da teoria e leva para a prática. Isso mostra que existe capacidade,interesse e que o movimento é necessário, não pontual”.

A executiva ressalta que o maior desafio atualmente não está mais na formação, mas na abertura real de oportunidades. “Hoje, muitas mulheres já estão habilitadas e interessadas, mas não conseguem acessar a operação. Se as empresas não estiverem preparadas para receber essas profissionais, o funil continua existindo e o setor perde uma oportunidade estratégica de resolver parte da escassez de mão de obra”, explica.

Apesar dos desafios, há um consenso entre as lideranças de que a pauta da equidade de gênero deixou de ser apenas social e passou a ocupar um papel estratégico no desenvolvimento do setor. A crescente demanda por profissionais, aliada à necessidade de modernização das operações e fortalecimento da governança, coloca a diversidade como um fator de competitividade.

“Equidade não é discurso, é execução. As empresas que entenderem isso e estruturarem processos, cultura e liderança para sustentar essa mudança estarão mais preparadas para crescer de forma consistente”, reforça Joyce.

Para Ana Jarrouge, o principal objetivo agora é garantir consistência nas ações. “Não podemos tratar esse tema apenas em março. A transformação exige continuidade, indicadores, acompanhamento e envolvimento real das lideranças, porque maior do que o desafio de atrair mulheres para o TRC, é criar um ambiente para que elas permaneçam e cresçam. Quando isso acontece, a mudança deixa de ser pontual e passa a ser estrutural”, conclui.

O avanço da presença feminina no TRC já é uma realidade, mas os dados mostram que ainda há um caminho relevante a ser percorrido. A combinação entre movimentos institucionais, formação profissional e mudanças internas nas empresas será determinante para que o setor evolua de forma mais diversa, inclusiva e preparada para o futuro.

Fonte: Caminhoneiros do Trecho