Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) indica que a entrada em vigor do acordo de livre comércio entre Mercosul e União Europeia, aprovado nesta sexta-feira (9), tende a gerar ganhos relevantes para a economia brasileira ao longo do tempo, com impactos positivos sobre o PIB, os investimentos e a balança comercial.
Segundo as estimativas, entre 2024 e 2040 o tratado poderia provocar um crescimento acumulado de 0,46% no PIB do Brasil, o equivalente a US$ 9,3 bilhões a preços constantes de 2023, em comparação com um cenário sem o acordo.
O levantamento aponta ainda que, em termos relativos, o Brasil seria o maior beneficiado dentro do bloco sul-americano. No mesmo período, o PIB da União Europeia cresceria apenas 0,06%, enquanto os demais países do Mercosul teriam alta de 0,20%.
Os autores usaram como referência dados e projeções do Fundo Monetário Internacional para os anos de 2014 a 2026 e, a partir daí, replicaram até 2040 as taxas de crescimento observadas no último ano da série.
As estimativas, no entanto, foram calculadas no início de 2024, antes das mudanças mais recentes no texto do acordo, que ampliaram salvaguardas e mecanismos de proteção ao mercado europeu, especialmente no setor agrícola.
No campo dos investimentos, o estudo projeta um aumento de 1,49% no Brasil em relação ao cenário de referência. Novamente, o ganho brasileiro supera o estimado para a União Europeia, de 0,12%, e para os demais países do Mercosul, de 0,41%.
Para os pesquisadores, esse resultado reflete o fato de a economia brasileira ser mais diversificada e capaz de absorver benefícios setoriais mais amplos a partir da redução de barreiras comerciais.
Já na balança comercial, o acordo resultaria em um ganho líquido de US$ 302,6 milhões para o Brasil. Nos demais países do Mercosul, o saldo positivo seria de US$ 169,2 milhões, enquanto a União Europeia apresentaria uma queda estimada de US$ 3,44 bilhões, como efeito combinado das reduções tarifárias e das concessões de cotas de exportação previstas no tratado.
As simulações detalham ainda a dinâmica das trocas comerciais ao longo do tempo. As importações brasileiras cresceriam de forma mais intensa nos primeiros anos do acordo, atingindo um pico de US$ 12,8 bilhões em 2034, antes de recuar para US$ 11,3 bilhões em 2040.
As exportações, por sua vez, avançariam de maneira contínua até alcançar um ganho acumulado de US$ 11,6 bilhões no fim do período.
Esse resultado decorre de três fatores principais: a queda das tarifas de importação na União Europeia; o aumento das quantidades exportadas em setores beneficiados por cotas concedidas pelo bloco europeu; e a redução do custo doméstico de insumos e bens de capital, que tornaria os produtos brasileiros mais competitivos no mercado internacional.
Para a União Europeia, o estudo mostra que as importações cresceriam mais rapidamente nos primeiros anos e continuariam avançando de forma mais lenta após a primeira década do acordo, chegando a um ganho de 0,16% em 2040.
As exportações também aumentariam, mas sem superar as importações em nenhum momento, encerrando o período com alta de 0,12%. Nos demais países do Mercosul, as importações subiriam nos primeiros dez anos, atingindo variação de 1,10% em 2034, antes de perder fôlego e recuar para 0,92% em 2040.
As exportações desses países, por outro lado, cairiam nos primeiros seis anos, mas inverteriam a trajetória posteriormente, alcançando crescimento de 0,97% ao final do horizonte analisado.
“O benefício que o Brasil teria com o acordo é maior que o dos parceiros do Mercosul porque a economia brasileira é mais diversificada e teria ganhos mais extensos em termos setoriais”, afirmou Fernando Ribeiro, técnico de planejamento e pesquisa do Ipea e um dos autores do estudo, ao lado de Admir Junior e Weslem Faria.
Segundo ele, a diferença em relação à União Europeia também é esperada. “A economia da UE é muito maior que a brasileira e, normalmente, quando um parceiro grande faz acordo com um menor, os ganhos que ele tem são proporcionalmente menores. Então, é natural que o Mercosul e, em especial, o Brasil, tenham benefícios proporcionalmente maiores com o acordo”, explicou.
As simulações indicam ainda efeitos relevantes sobre a produção e o emprego no Brasil. Quase todos os setores do agronegócio apresentariam ganhos com o acordo, enquanto as perdas ficariam concentradas em segmentos industriais específicos, como veículos e autopeças, metais ferrosos, vestuário e acessórios, produtos de metal, têxteis, farmacêuticos, máquinas e equipamentos e eletrônicos.
Segundo o Ipea, esse padrão reforça a leitura de que o acordo tende a favorecer setores já competitivos no comércio internacional, ao mesmo tempo em que pressiona áreas industriais mais expostas à concorrência externa.
Fonte: InfoMoney
