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Entenda como o conflito no Oriente Médio afetou o BRICS

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Reabertura do Estreito de Ormuz freia a escalada da crise do diesel em países do bloco e alivia o preço do petróleo Brent imediatamente

A geopolítica do petróleo, que elevou o mundo a um estado de alerta máximo nas últimas semanas, deu um suspiro temporário. Na noite de 7 de abril de 2026, Estados Unidos e Irã anunciaram uma trégua de duas semanas, mediada pelo Paquistão, que interrompeu a guerra iniciada em 28 de fevereiro. O acordo veio com uma condição essencial que afeta diretamente as economias do BRICS, que foi a reabertura do Estreito de Ormuz, fechado pelo Irã desde o início do conflito e por onde passam cerca de 20% das exportações mundiais de petróleo. O alívio foi imediato nos mercados e o petróleo Brent recuou para a faixa dos US$ 85-90 por barril, e o dólar caiu para R$ 5,14.

No entanto, se a reabertura do estreito afrouxou a principal válvula de pressão sobre os preços globais, ela não foi capaz de reverter, de uma só vez, os danos econômicos já infligidos aos países do bloco. A tabela abaixo, compilada com dados posteriores ao anúncio da trégua, mostra um painel de realidades díspares, onde o fantasma da inflação de combustíveis ainda assombra nações inteiras.

Valores praticados nos BRICS
No espectro de preços do diesel entre os membros do BRICS, as disparidades são gritantes, segundo dados do GlobalPetrolPrices e de agências oficiais. O Irã, beneficiado por subsídios maciços mesmo após o fim do bloqueio ao Estreito de Ormuz, mantém o combustível a irrisórios US$ 0,006 por litro, sendo o segundo menor valor absoluto do planeta (atrás da Venezuela). Na outra ponta, a África do Sul ainda amarga o diesel mais caro do bloco, a US$ 1,43 por litro, reflexo do reajuste histórico aplicado antes da trégua. Os Emirados Árabes Unidos, com preços atrelados ao mercado internacional, venderam o diesel a US$ 1,28 por litro no início de abril, enquanto o Brasil, que congelou reajustes para evitar uma explosão inflacionária, registrou média de US$ 1,24 por litro, ligeiramente abaixo da média global de US$ 1,51.

A Etiópia aparece com US$ 1,04 por litro, um patamar elevado para os padrões africanos, enquanto a Índia, após cortar impostos, chegou a US$ 0,98 por litro. A Rússia, maior exportadora de energia do bloco, pratica preços internos moderados de US$ 0,99 por litro, ligeiramente acima da China, onde o diesel é vendido a US$ 0,93 por litro sob forte controle estatal.

A Arábia Saudita mantém seus subsídios generosos, com preço de US$ 0,48 por litro, e a Indonésia, também com forte intervenção governamental, oferece o diesel subsidiado a US$ 0,41 por litro. Por fim, o Egito figura entre os mais baratos, com US$ 0,39 por litro, sustentado por uma política de preços administrados que o governo tenta, a passos lentos, reduzir.

O paradoxo da importação sendo autossuficiente
Para países como Brasil e África do Sul, que não produzem petróleo em quantidade suficiente para abastecer seus mercados, a trégua alivia a pressão, mas não elimina o problema estrutural.

No caso do nosso país, isso ocorre porque, apesar sermos autossuficiente em volume total e um grande produtor de petróleo, o país precisa importar derivados. Isso acontece porque o país extrai majoritariamente petróleo pesado, mas suas refinarias foram feitas para processar petróleo leve, sendo necessário importar outros tipos para misturar e tornar o refino viável.

No Brasil, a trégua trouxe um alívio cambial, mas a defasagem interna persiste. Apenas como curiosidade, no dia 6 de abril, o diesel da Petrobras nas refinarias ainda estava R$ 2,10 por litro abaixo do preço de paridade de importação, uma defasagem de 58%. A aposta do governo em uma subvenção combinada entre União e estados ainda é a principal âncora para evitar que o preço ao consumidor exploda.

A África do Sul, por exemplo, ainda opera sob o impacto do maior aumento de preço do diesel de sua história, implementado em 1º de abril. Com um salto de R$ 7,51 (0,44 dólares) por litro, o combustível atingiu o recorde de R$ 26,11 (US$ 1,43) por litro nas regiões centrais, mesmo após o governo ter reduzido temporariamente o imposto sobre combustíveis em R$ 3,00 por litro.

Banco dos BRICS
No centro financeiro dessa tormenta, Dilma Rousseff segue à frente do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB) com um discurso que ganhou ainda mais relevância com a volatilidade cambial provocada pela guerra. A presidenta do banco tem reiterado que a dependência do dólar é um calcanhar de Aquiles para os emergentes. Em declarações recentes, ela reafirmou a meta de que 30% da carteira de empréstimos do NDB seja denominada em moedas locais até o final de 2026, uma ferramenta essencial para que países como o Brasil possam importar energia sem depender da flutuação agressiva da moeda americana.

O discurso de Dilma ressoou ainda mais forte com a crise. Para ela, em uma visão de longo prazo, a única forma de o Sul Global se proteger de conflitos que não controla é construindo uma arquitetura financeira paralela. A guerra no Oriente Médio e a subsequente trégua serviram como um experimento em tempo real de sua tese, já que enquanto houver dependência do dólar e das rotas marítimas controladas por potências ocidentais, a “soberania energética” do BRICS será uma miragem.

Fonte: Frota&Cia