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Brasil bate recordes em concessões e prevê novos investimentos em 2026

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Quase um terço dos leilões de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos desde 1995 foram realizados entre 2023 e 2025; governo prevê 20 certames no primeiro trimestre do ano

Martelos batidos, agenda cheia na B3 e bilhões injetados na infraestrutura brasileira nos últimos anos. Quase um terço (31%) dos leilões federais de ferrovias, rodovias, portos e aeroportos desde a Lei das Concessões de 1995 foram realizados entre 2023 e 2025, segundo levantamento feito pelo Ministério de Transportes a pedido da Folha de S.Paulo. Para 2026, o governo prevê a continuidade desse ciclo de aporte, com planejamento de 20 certames no primeiro trimestre do ano.

Os dados revelaram uma tendência de aumento de concessões desde a redemocratização. O governo Fernando Henrique Cardoso, por exemplo, fez 26 leilões durante os dois mandatos, enquanto o governo Bolsonaro foi responsável por 45.

Para a Folha de S.Paulo, o ministro de Transportes, Renan Filho, avaliou que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) percebeu que, para ampliar o investimento, era importante aumentar a participação da iniciativa privada dadas as restrições fiscais.

Na visão do professor e diretor do Núcleo de Infraestrutura, Supply Chain e Logística da Fundação Dom Cabral, Paulo Resende, a aceleração no processo de concessões e no volume de concessões em infraestrutura de transportes, é o resultado de um aprendizado do Brasil ao longo dos últimos 30 anos.

Nesse período, os modelos foram sendo incrementados, e melhorados aos poucos, com muita dificuldade em algumas situações, com leilões muito mal realizados. Porém, isso trouxe resultados interessantes para o país.

“O Brasil aprendeu a fazer a modelagem de projetos. Aprendeu, com muito sacrifício, mas hoje o Brasil é o país no mundo que mais realiza concessões na área de infraestrutura de transporte”, afirmou com exclusividade para a MundoLogística.

LEILÕES DO SETOR PORTUÁRIO
Assim, entre 2023 e 2025, o Brasil acumulou 50 leilões de concessões federais, com predominância de projetos do setor portuário. Do início do terceiro mandato de Lula até agora foram 26 terminais concedidos com um total de R$ 15,5 bilhões injetados. Entre os aportes, se destacaram terminais do Porto de Paranaguá, Porto do Rio de Janeiro e no Porto de Santos.

O setor está vivendo um momento de aumento na movimentação de cargas. De acordo com os dados do Estatístico Aquaviário da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (ANTAQ), os portos brasileiros movimentaram 1,4 bilhão de toneladas em 2025, frente a 1,32 bilhão registrado em 2024, o que representa crescimento de 6,1%.

Para 2026, o Ministério de Portos e Aeroportos prevê 18 leilões portuários, quatro canais de acesso, cinco projetos de concessão de hidrovias e R$ 586 milhões destinados à infraestrutura hidroviária. Um dos focos para o setor nesse ano é o Tecon Santos 10 (STS10) do Porto de Santos.

O terminal ampliará em 50% a capacidade de movimentação de contêineres do porto com quatro berços de atracação de navios para embarque e desembarque e área de 621 mil m². O MPor prevê que, com a entrada em operação do novo terminal, o país salte da atual 45ª para a 15ª posição no ranking mundial de movimentação de contêineres.

Durante o CEO Conference 2026, promovido pelo BTG Pactual, o ministro de Portos e Aeroportos, Silvio Costa Filho, comentou que esses aportes são uma demonstração que o governo tem procurado investir cada vez mais em quem produz.

RODOVIAS BRASILEIRAS
Outro foco dos últimos aportes para a infraestrutura brasileira foram as rodovias, com 22 leilões de rodovias e R$ 247 bilhões em recursos contratados. As obras totalizaram mais de 10 mil quilômetros, o que impacta totalmente a logística brasileira baseada em transporte rodoviário.

Para se ter uma ideia do impacto das rodovias no Brasil, a qualidade do pavimento eleva, em média, 31,2% os custos operacionais do transporte no Brasil, segundo dados da Pesquisa CNT de Rodovias 2025, financiada pelo SEST SENAT. Em relação à privatização de vias, 64,4% das rodovias públicas apresentam algum problema no pavimento. Esse número caí para 34,4% quando se trata de trechos concedidos.

Em 2026, o Ministério dos Transportes prevê 13 novos leilões de rodovias, que devem mobilizar R$ 149,1 bilhões em aportes e alcançar 6.407 quilômetros de corredores logísticos estratégicos. Entre os trechos previstos para leilão estão: a Rota dos Sertões (BR-116/BA/PE); a Rotas Gerais (BR-116/251/MG); e a Rota Agro Central (BR-070/174/364/MT/RO).

O país encerrou 2024 com 28,2 mil km de rodovias sob concessão — 13,8 mil km estaduais e 14,3 mil km federais —, enquanto a União administra diretamente 51,6 mil km de malha rodoviária.

PLANOS PARA AS FERROVIAS
Mesmo que o Brasil tenha vivido tempos positivos para as ferrovias durante o governo de FHC, não há concessões para o setor desde 2021. Nesses últimos anos, o governo priorizou outras formas de investimentos, como a repactuação dos contratos de concessão da Estrada de Ferro Carajás (EFC) e da Estrada de Ferro Vitória a Minas (EFVM) com a Vale.

Por isso, o Governo Federal apresentou um novo pacote ferroviário com a Política Nacional de Outorgas Ferroviárias e a carteira de projetos 2026, que representam a maior agenda de investimentos em trilhos já estruturada no país.

O plano do Ministério dos Transportes prevê oito leilões de ferrovias que abrangem mais de nove mil quilômetros de extensão e devem atrair cerca de R$ 140 bilhões em investimentos, com projeção de R$ 600 bilhões injetados no sistema ferroviário.

O professor Paulo Resende destacou que esses projetos podem mudar o modal ferroviário no Brasil. “Se juntarmos as repactuações e novas concessões, haverá um aumento da participação do modal ferroviário que hoje está por volta de 23% e atingiria aproximadamente 30%”, ressaltou.

Para futuro, o especialista espera a integração entre rodovias e ferroviárias para o uso de contêineres realizando uma operação porta a porta em um corredor rodoferroviário. “Isso é muito importante para o país. Nós vamos trazer esse conceito de integração modal para prática”, ressaltou.

CENÁRIO PROMISSOR PARA O BRASIL
O ministro dos Transportes, Renan Filho, apontou para um cenário ainda mais promissor para o país nesse ano, com o Brasil no estado de “máxima histórica de investimento para infraestrutura”.

Durante a participação no evento promovido pelo BTG Pactual, ele comentou sobre os feitos históricos e quais os planos para o último ano do terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Para o ministro, essa posição do Brasil pode trazer muitos resultados positivos.

“Isso certamente vai significar mais crescimento econômico adiante, sobretudo quando somado ao cenário internacional onde os países maiores estão em déficit fiscal grande”, pontuou. Ele explicou que no cenário internacional é possível ver nações espalhando o capital e elevando o risco, além de um ambiente de guerra.

No entanto, no Brasil há um ambiente de mais tranquilidade, posicionado como polo principal da região e um diálogo altivo com os Estados Unidos. “Isso somado à melhor infraestrutura certamente vai colocar o Brasil em condições melhores no futuro”, disse.

Ao ser questionado sobre a possibilidade desses projetos serem realizados, Paulo Resende se mostrou otimista. “O risco, do prometido não sair do papel é menor agora, porque nós estamos falando majoritariamente de investimentos privados”, avaliou.

O professor explicou que atualmente o orçamento público definitivamente não é suficiente para a necessidade de investimento que a infraestrutura do transporte pede. Para se ter uma ideia, o Brasil, hoje, precisaria de investir cerca de US$ 30 bilhões, ou seja, R$ 120 bilhões, durante 10 anos, para que o custo logístico estivesse no mesmo patamar do custo logístico dos Estados Unidos, da China, do Canadá e da Austrália.

Nesse contexto, Paulo Resende trouxe que há um cenário de esperança se depender de algumas variáveis e a primeira delas é a demanda. “A demanda é muito alta por uma melhor infraestrutura no Brasil. Se for oferecido infraestrutura no lugar certo, com o modal certo, é certeza absoluta que vai haver retorno na demanda”, afirmou.

Já a segunda questão é o capital privado. Atualmente, o Brasil lida com investidores internacionais e fundos internacionais de investimento, e Resende explicou que esses investidores levam muito a sério a modelagem do investimento em CAPEX e as previsões de OPEX.

Com esses dados, o professor acredita que o Brasil entrou num caminho muito importante de aceleração dos investimentos em infraestrutura e nenhum governo nos próximos anos é capaz de parar isso. “A força gravitacional, eu diria, da demanda é muito maior do que ideologias, é muito maior do que posicionamentos políticos, a transferência dos nossos ativos para a iniciativa privada veio para ficar no Brasil”, completou.

Fonte: Mundo Logística