Alta do combustível, escassez de mão de obra e gargalos operacionais elevam custos no setor; tema será destaque no Transporte do Futuro
O transporte rodoviário de cargas no Brasil opera sob uma equação cada vez mais apertada. De um lado, o diesel segue como o principal componente do custo operacional das transportadoras. De outro lado, a escassez de motoristas e a perda de produtividade aumentam a pressão sobre a rentabilidade do setor.
Segundo a Associação Nacional do Transporte de Cargas e Logística (NTC&Logística), o diesel representa, em média, 35% do custo operacional das transportadoras brasileiras, a maior fatia da estrutura de despesas do setor. Por ser o item de maior peso, o combustível é também um dos principais fatores na formação do frete rodoviário.
Na prática, qualquer variação no preço do diesel se reflete quase imediatamente no valor cobrado pelo transporte. Quando o combustível sobe, o custo por quilômetro rodado aumenta, pressionando o transportador a reajustar as tarifas para manter a operação viável.
FRETE SOBE PUXADO PELO DIESEL
Esse movimento já aparece nos indicadores mais recentes do mercado. De acordo com a mais recente análise do Índice de Frete Rodoviário da Edenred (IFR), com base em dados da plataforma Repom, o preço médio do frete por quilômetro rodado no Brasil fechou março de 2026 em R$ 7,99, alta de 3,36% em relação a fevereiro, quando o valor médio foi de R$ 7,73.
Segundo a análise, o principal fator por trás da alta registrada no período foi justamente o aumento do preço do diesel, impactado pelo cenário global de abastecimento de petróleo, ainda pressionado pelas tensões no Oriente Médio.
O peso do combustível sobre a operação ajuda a explicar esse movimento. Levantamento do IPC.MLog, indicador da MundoLogística, mostrou que o diesel S10 seguiu em patamar elevado nas últimas semanas.
Entre 12 de abril e 29 de abril, o preço médio nacional recuou de R$ 7,36 para R$ 7,10 por litro, mas, no acumulado desde 27 de fevereiro de 2026, a alta é de R$ 1,46 por litro, o equivalente a 25,9%, com preço-base de R$ 5,64 por litro. Embora a trajetória diária mais recente indique acomodação, o patamar segue elevado e continua pressionando a estrutura de custos do transporte.
Esse avanço do combustível também já teve reflexo direto na política de frete mínimo. Em março, a Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) publicou a Portaria SUROC nº 4/2026, atualizando os coeficientes dos pisos mínimos de frete com base no preço médio do diesel S10. Pela nova referência, o valor do litro passou a ser de R$ 7,35, considerando a semana de 15 a 21 de março de 2026, segundo dados da ANP. O reajuste ocorreu em razão da oscilação no preço do óleo diesel, conforme prevê a Lei nº 13.703/2018.
Na comparação com a atualização anterior da tabela, quando o diesel de referência era de R$ 6,89 por litro, a variação acumulada foi de 6,67%.
FALTA DE MOTORISTAS
Se o combustível pressiona o custo variável, a mão de obra se tornou um dos principais gargalos operacionais do setor. A pesquisa da NTC&Logística apontou que a falta de mão de obra qualificada esteve entre os principais entraves do transporte rodoviário de cargas em 2025.
O levantamento mostrou que 88% das empresas têm dificuldade para contratar motoristas e agregados. Entre as transportadoras que relataram veículos parados, a média é de oito caminhões por empresa.
Na edição 110 da MundoLogística o diretor-presidente da Tigerlog Consultoria, Marco Antonio Oliveira Neves, afirmou que a falta de motoristas seguirá como um dos desafios centrais para o ano. “A escassez de motoristas é uma crise global que afeta o Brasil de forma contundente e deve se agravar em 2026”, avaliou.
No artigo, ele também apontou os fatores associados a esse quadro. “O envelhecimento da população de caminhoneiros, a baixa atratividade da profissão para os jovens devido às longas jornadas e à falta de segurança são fatores críticos”, disse.
Segundo Neves, o setor terá de investir em retenção e formação de profissionais. “O setor terá que investir na melhoria da remuneração e em programas de qualificação, em parceria com instituições públicas e privadas, para formar novos profissionais”, escreveu.
A escassez de profissionais é hoje a segunda maior limitação ao crescimento do setor, citada por 28,1% dos entrevistados. O problema aparece atrás apenas da piora do mercado interno (40,7%) e à frente das dificuldades de acesso ao capital (17%).
Em um segmento altamente dependente da mão de obra, o impacto é direto. Os motoristas representam 19,5% dos custos operacionais do TRC, enquanto o combustível responde por 43,2% e os veículos por 29,1%. Juntos, esses três insumos concentram 92% da estrutura de custos do transporte rodoviário de cargas.
MÃO DE OBRA ENCARECE
Se o diesel segue pressionando o frete e a escassez de motoristas já compromete a operação, o avanço dos custos com mão de obra adiciona uma nova camada de pressão. Nos últimos 24 meses, o custo com mão de obra acumulou alta de 13,42%, acima da variação dos veículos (2,61%) e em linha com a oscilação do combustível (2,69%). Em 36 meses, o aumento chega a 20,2%. Já no acumulado de 12 meses até janeiro de 2026, a elevação foi de 7%.
Apesar dessa pressão, nem sempre as transportadoras conseguem repassar os aumentos ao valor do frete. Em 2025, 55,6% das empresas reajustaram os preços, com aumento médio de 6%. Outras 23,7% mantiveram os valores e 20,8% aplicaram descontos médios de 5,7%.
O resultado é uma defasagem entre o custo real da operação e o valor efetivamente pago pelo mercado. Segundo a NTC&Logística, a diferença média entre os custos calculados pela entidade e o frete recebido é de 10,1%.
Além disso, o fluxo de caixa também sofre pressão: o prazo médio de recebimento é de 47,6 dias, e 7,3% das receitas enfrentam atrasos.
Essa pressão pode se intensificar ainda mais com eventuais mudanças na jornada de trabalho. Estudo técnico da CNT apontou que a redução da jornada semanal de 44 para 40 horas pode gerar, no longo prazo, um impacto de R$ 11,88 bilhões para o setor de transporte.
A análise considera os efeitos econômicos e operacionais da medida em um segmento que opera de forma contínua, 24 horas por dia, sete dias por semana.
Segundo o levantamento, para manter o mesmo nível de serviço com jornada reduzida e novas escalas, seria necessário contratar cerca de 240 mil trabalhadores adicionais. O problema é que essa expansão esbarra justamente em um gargalo já citado: a escassez de mão de obra qualificada.
Em levantamento anterior da própria CNT, 65,1% das empresas do setor relataram dificuldade para contratar motoristas. O estudo também chama atenção para a estrutura empresarial do transporte: 90,5% dos empreendimentos têm até nove empregados.
Para essas pequenas empresas, a redução da jornada pode representar um desafio ainda maior, porque a margem de absorção de custos é menor. Hoje, 47,3% do valor adicionado bruto do setor já é destinado ao pagamento de pessoal, o que limita o espaço para incorporar novas despesas sem pressionar ainda mais o caixa.
SETOR CRESCE, MAS INVESTIMENTO AINDA AVANÇA EM RITMO LIMITADO
Apesar das pressões de custo e produtividade, o transporte segue relevante para a atividade econômica. Em 2025, o PIB do setor de transporte, armazenagem e correio alcançou R$ 395,67 bilhões, com crescimento de 2,1% em relação a 2024. No mesmo período, a economia brasileira avançou 2,3%, somando R$ 12,74 trilhões.
De acordo com a análise do Radar CNT do Transporte – PIB Brasil 2025, o desempenho da economia foi puxado principalmente pela agropecuária (11,7%), pela indústria extrativa (8,6%) e pelos serviços de informação e comunicação (6,5%). Já os investimentos na economia brasileira cresceram apenas 2,9%, em ritmo ainda considerado modesto diante da necessidade de ampliar a capacidade produtiva e logística do país.
A participação dos investimentos no PIB brasileiro segue em patamar historicamente baixo. Entre 1996 e 2025, a média foi de 17,9%. Em 2025, porém, esse indicador ficou em 16,8%, próximo do registrado em 2020, quando a economia foi fortemente impactada pelas restrições impostas pela pandemia.
2026 COMEÇA SOB NOVA PRESSÃO
Para o próximo ano, o setor vê um cenário de cautela. Segundo a NTC&Logística, 57% das empresas acreditam que o mercado deve permanecer estável, enquanto 29,6% projetam piora e apenas 13,3% esperam melhora.
A entidade ressalta que 2026 já começa com pressão inflacionária e novos desafios operacionais que exigem atenção imediata. Entre eles estão o início da segunda fase da reoneração da folha de pagamento, que eleva a carga tributária sobre o setor, e a manutenção da Selic em patamar elevado.
COMO ESTAR ATUALIZADO?
Para preencher essa e outras lacunas estruturais do setor, a MundoLogística realizará o Transporte do Futuro, nos dias 17 e 18 de junho de 2026, no Expo Center Norte, em São Paulo. O evento reúne mais de 2 mil líderes do setor — donos de transportadoras, CEOs, gestores e diretores de grandes embarcadores — em torno de conteúdo técnico aplicado, geração de negócios e relacionamento com quem está, de fato, remodelando o transporte rodoviário de cargas no Brasil.
Temas como gestão de motoristas, compliance trabalhista, planejamento financeiro, controle de custos operacionais e o uso de tecnologia na tomada de decisões integram a programação, estruturada em trilhas temáticas por segmento — agro, varejo, indústria e e-commerce. Além dos palcos, o evento terá área de negócios, Matchmaking, mentorias e espaços exclusivos de relacionamento.
As inscrições estão abertas no site oficial do evento: transportedofuturo.com.br.
Fonte: Mundo Logística
