No momento, você está visualizando ‘Não é capricho, é necessidade’: os gargalos que travam o transporte de cargas em SC

‘Não é capricho, é necessidade’: os gargalos que travam o transporte de cargas em SC

  • Categoria do post:Transportes

Presidente da entidade defende que a logística rodoviária é estratégica para a economia catarinense e nacional, mas enfrenta entraves históricos

O presidente da Fetrancesc (Federação das Empresas de Transporte de Carga e Logística no Estado de Santa Catarina), Dagnor Schneider, esteve na sede do Grupo ND, no Morro da Cruz, em Florianópolis, onde concedeu entrevista para projetar os desafios e prioridades do setor para este ano.

À frente de uma entidade que representa 13 sindicatos patronais do transporte de cargas no Estado, Schneider defende que a logística rodoviária é estratégica para a economia catarinense e nacional, mas enfrenta entraves históricos que impactam custos, segurança viária e competitividade.

Gargalos históricos do transporte rodoviário

A precariedade da malha rodoviária, avalia, tem efeitos diretos sobre os custos operacionais. “Além de termos um agravamento de custo na ordem de 30% a 35% por conta da precariedade da malha, nós temos uma potencialização do índice de acidentes”, diz.

Para o presidente da Fetrancesc, trata-se de um cenário histórico que se arrasta há décadas e exige atuação constante junto aos governos estadual e federal, DNIT (Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes), ANTT (Agência Nacional de Transportes Terrestres) e concessionárias.

Morro dos Cavalos como prioridade estratégica

Entre as principais pautas de 2025, esteve a articulação para o redirecionamento da obra do Morro dos Cavalos. “Foi um movimento muito intenso e, pelo que tudo indica, nós estamos num processo de finalização para que essa obra demandada, que são os dois túneis, acabe sendo direcionada para a concessionária do trecho Sul”, explica. Segundo ele, a mudança traz mais celeridade diante do volume de obras pendentes no trecho Norte.

A Fetrancesc defende a solução dos túneis e não um Contorno Viário. “É um projeto que já está pronto, elaborado pelo DNIT, com licenciamento ambiental. Ele se encaixa de forma tranquila no contrato da concessionária do Sul, sem gerar um agravamento tão relevante no pedágio”, afirma. Para Schneider, as condições estão dadas para que a obra avance e comece a sair do papel.

BR-101 Norte e a Via Mar

Outro ponto crítico é a BR-101 Norte. Schneider avalia que as intervenções previstas são insuficientes. “As obras que estão sendo citadas agora são as mesmas indicadas lá em 2015. Mesmo executando tudo isso, nós não vamos resolver o problema do colapso que vivenciamos hoje”, diz.

Para ele, a solução estrutural passa pela Via Mar. “Acreditamos que a solução efetiva para a BR-101 Norte perpassa pela Via Mar.” O impacto econômico é elevado. “O setor acaba tendo uma penalização econômica por perda de produtividade e aumento do consumo de óleo diesel, gerando um custo ambiental e econômico na ordem de R$ 1 bilhão por ano”, afirma. A situação também é grave do ponto de vista da segurança.

“O trecho Norte da BR-101 é o mais perigoso das rodovias federais do Brasil, com 23 a 25 óbitos a cada 100 quilômetros, enquanto a média brasileira é de quatro”. Para Schneider, mortes no trânsito não podem ser tratadas como normalidade. “A gente paga, hoje, um preço pela omissão de quem deveria ter feito algo lá atrás.”

BRs estratégicas e investimentos federais

A situação da BR-280, ligação entre a BR-101 e o Porto de São Francisco do Sul, também preocupa. “O porto amplia a capacidade, mas infelizmente a malha rodoviária, do jeito que está, não vai atender essa demanda”, diz. Schneider critica a queda nos repasses federais.

“Em 2023 e 2024, recebemos cerca de R$ 1 bilhão. Em 2025, o compromisso era o mesmo, mas recebemos em torno de R$ 400 milhões. Para 2026, o orçamento do DNIT é mais ou menos na mesma ordem e é insuficiente.” Schneider aponta ainda uma distorção na distribuição de recursos federais na região Sul.

“Em 2024, Santa Catarina, comparado com o Rio Grande do Sul e o Paraná, recebeu a metade dos investimentos do governo federal em relação ao Paraná e ao Rio Grande do Sul. E foi o Estado que mais contribuiu com o governo federal entre os três”, afirma. Para ele, o cenário evidencia uma falta de contrapartida.

“Santa Catarina não recebe o retorno de que precisa e merece. Não é capricho, é necessidade. Precisamos cobrar a contrapartida em investimentos que cabem ao Estado, principalmente na infraestrutura rodoviária.”

Logística, modernização e qualificação

Apesar dos gargalos, o setor logístico segue em expansão. Para 2026, a prioridade é investir em tecnologia e qualificação. “Tecnologia da informação, Inteligência Artificial e preparação do empresário para essa nova realidade são fundamentais”, diz. A Federação criou um clube de compras para ampliar a competitividade e investe na formação profissional. “O motorista, que hoje é um gestor de uma unidade móvel, precisa de qualificação diferenciada.”

O sistema Sest Senat (Serviço Social do Transporte e Serviço Nacional de Aprendizagem do Transporte) terá novas unidades em Três Barras e Tubarão, com foco em qualificação, saúde e lazer. Há ainda parcerias com o governo do Estado, como o programa Motorista do Futuro. “São 13 sindicatos ligados à Federação, todos conectados em torno do propósito de valorizar o transportador”, afirma.

Ao projetar 2026, o presidente da Fetrancesc reforça que o transporte de cargas seguirá como base da economia. “Sem atividade de transporte, as demais não acontecem”, afirma. A expectativa é de um ano de avanços, com mais investimentos, segurança e cada vez mais reconhecimento do papel estratégico do setor para Santa Catarina e para o país.

Fonte: ND+